quarta-feira, 25 de maio de 2011

O novo 'Mondrian day dress'

Here we go again!

Sei que é um absurdo deixar de escrever num blog por mais de um ano, mas não teve jeito. A faculdade consome muito tempo e, entre escrever qualquer coisa e fazer algo bem feito, vocês sabem o que prefiro. Ocorre que resolvi ler ontem algumas das críticas sobre o novíssimo Born This Way, terceiro álbum de Lady Gaga, e a enxurrada de comentários abaixo da resenha feita pela Rolling Stone me obrigou a tomar partido. Além disso, desde a última vez em que falei sobre a cantora, se passaram mais de 15 meses! Tempo suficiente para que ela vestisse o meat dress, saísse de um ovo na última edição do Grammy Awards (nossa lady tem 5 desses prêmios!), concluísse a maior turnê da história para um álbum debutante, o The Fame/The Fame Monster, quebrasse o recorde de seguidores no twitter (são mais de 10 mil!) e, claro, lançasse um CD muitíssimo bem avaliado pela crítica.


Born This Way é bom. Fala sobre viver entre a realidade e a fantasia, autoaceitação, perdoar traidores e, bem à la Gaga, sair à noite usando jaqueta de couro e luvas de renda para beber uísque, beijar o bartender e voltar pra casa feliz da vida. O álbum é um grande caldeirão: fundem-se referências extraídas de David Bowie, Bruce Springsteen, Alice Cooper, Madonna, Queen; e também tem espaço para o movimento gótico no Leste Europeu e um pouquinho de canto gregoriano. Na teoria, é algo bem criativo, dançante e musicalmente poderoso. Mas um burburinho ronda Born This Way: "ah, eu gostava daquela outra Gaga! Ela era divertida e não carregava tanto na maquiagem. Ela é como as outras [Britney, Rihanna, Katy Perry, Christina Aguilera], foi manufaturada; se vendeu ao comercial. Hoje tudo o que a Gaga faz é pra imitar a Madonna!"

Vamos por partes: Gaga vende não só música, mas também imagem. Ela nunca quis ser mera cantora pop, mas um ícone da cultura pop em si. Quando, logo no início da carreira, perguntaram sobre como era ser tão comentada ao redor do mundo, Gaga respondeu que não era nada de mais; que fazia parte do seu plano. Basicamente, os rumores fariam dela uma constante nas conversas pela internet, entre os jovens, no dia a dia, nas ruas de todo o planeta. Repetido à exaustão, o nome de Gaga passaria a integrar a cultura popular. "Gaga" seria empregado como adjetivo, passaria a descrever o que chamo de "loucura honesta".

Talvez vocês, leitores, achem que todo cantor pop faz isso; mas garanto que não da mesma maneira que ela. Lady Gaga estudou História da Arte e conhece o poder da iconografia, conceito revitalizado na obra de Andy Warhol e que pressupõe a repetição, a criação de associações quase espontâneas entre uma figura e a pessoa que a produz. O quero dizer é que Gaga se valeu disso conscientemente: no primeiro semestre de 2009, seu figurino foi muito semelhante: variações do Mugler crystal dress e do vestido espelhado predominavam. O problema é que mesmo ícones se desgastam e, por isso, devem se sofisticar o tempo todo e ser repetidos tantas vezes mais.

É possível que Lady Gaga ainda não tenha encontrado a sua estética, então agrega elementos que não a descaracterizem, mas ressaltem aquilo pelo qual a conhecemos. Como uma de suas marcas é a influência disco, ela foi a dance music buscar tudo o que pôde para compor o novo CD. Nessa busca, esbarrou em Madonna, é óbvio, e também nas "princesas do pop", que cresceu escutando; mas conservou as repetições silábicas, o refrão explosivo (normalmente, anunciado logo de cara, ou até mesmo antes de a canção de fato começar, como em Bad Romance), os jogos de palavras, a maliciosa sutileza dos versos, a mórdida psicose, a ironia ácida. Naturalmente, essas combinações não bastariam: a nova feição de Gaga optou, então, por recuperar do rock e do jazz (gêneros que o pai da cantora adora) aquilo que faria de Born This Way uma miscelânea criativa - e não outro pop "mingau".

Dizem que Gaga é puro comércio: bem, em 2008, quando ela se lançou internacionalmente, a dance music estava em baixa. Na época, era tendência mesclar pop e hip hop, pop e black. Se o gênero dance voltou, é graças à Gaga e à redescoberta da cultura setentista/oitentista no mundo da moda. Dance não era cool, mas voltou a ser. Na verdade, agora é übercool. Lady Gaga, ciente dessa massificação, mudou seu trajeto: para se destacar, ela voltou às suas raízes como go-go dancer, quando fazia shows burlescos ao som de Black Sabbath, Iron Maiden, Metallica e AC/DC. Se o novo álbum parece tão agressivo e gótico, é por esse motivo.

Outro ponto: dizem que Gaga copia Madonna. Primeira questão: quem não se inspira na Rainha? As aspirantes à realeza sempre começam com aquela coisinha meio virginal, meio sapeca - enfim, a malícia clássica de Like a Virgin. E quem pensa que Madonna criou o pop eletrônico ou a androgenia nunca leu ou ouviu nada sobre o final dos anos 70; sobre Bowie, por exemplo (que também não inventou a androgenia nem o electro pop). Ademais, Sua Majestade é muito sincera no que diz respeito a referências: muitos dos seus ensaios são releituras de fotos da Hollywood dourada (lembrem-se das personalidades citadas em Vogue). Madonna se fantasiava de Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Greta Garbo e Betty Davis. No início da carreira, muitos criticaram a futura Rainha por copiar as divas do cinema, e foi aí que Madonna criou novas personagens para si mesma. Gaga está simplesmente testanto a fórmula: livrou-se dos excessos dance, manteve a disco vibe e incorporou algo do rock (sem grandes dramas); mudou a personagem.

Por fim, dizem que Gaga só sabe contar histórias contando histórias (foi isso mesmo que li na Rolling Stone). Esse não é um problema, mas um caminho. Gaga é teatral, gosta de óperas e de grandes tragédias. É uma romântica do post pop. De qualquer modo, não são histórias bobas: para criar Judas, Gaga recuperou estudos sobre o papel do "traidor" na Bíblia: sem ele, a profecia da crucificação não teria se cumprido (e, é bom lembrar, Jesus o perdoou) - daí ser uma canção sobre perdoar os traidores, os inimigos e, afinal, livrar-se do sofrimento.

Gaga não é a nova Madonna nem o novo Bowie. Nunca será. Gaga é a primeira e única... Gaga! Os contextos que produziram Bowie e Madonna foram outros, talvez mais conservadores, mais sombrios e mais desafiadores. De qualquer modo, cantar como Gaga é um desafio. Suas apresentações acústicas são magicamente arrebatadoras e sua presença de palco, difícil de reproduzir. Gaga, espero, poderá vir a ser a Rainha do Pop 2.0, do post pop. Até lá, que as pessoas leiam e descubram. Yves Saint Laurent não deixou de ser um YSL no outono de 1965...

- Imagem: reprodução.

Um comentário: